segunda-feira, 10 de agosto de 2015

GABRIEL, O MENSAGEIRO!


A trombeta angélica da Anunciação
Os céus em glória refulgem diante da grandeza daquele que foi escolhido pelo Altíssimo para ser o seu mensageiro principal na terra: Gabriel, o arcanjo, cujo nome, de origem hebraica - Gavri'el - significa o "Homem de Deus". O epíteto em si revela, para além da essência da deidade, a entidade que, misteriosamente, é um ser proveniente da Luz, mas que recebe o título de Homem. Assim, um paradoxo inexplicável emerge da natureza desse ente espiritual poderoso e que, ao lado de Miguel e Rafael, completa a imponente tríade angelical, cujos nomes e presenças estão registrados nas Escrituras Sagradas. Gabriel, que é agraciado com o honroso predicado, acima citado, é o ser angelical que está mais próximo da Humanidade; e sua aparição na Bíblia, talvez a mais emblemática de todas as passagens, nas quais o mensageiro de Iavé se manifestou em toda sua majestade e esplendor, está cristalizada no evento conhecido  por Anunciação

Gabriel diante de Maria, a agraciada: nascerá o Salvador
Reprodução da obra de Leonardo da Vinci - Anunciação
Portador dos grandes mistérios de Deus para os homens e mulheres de boa vontade, coube a Gabriel a mais importante missão na estória da Humanidade: anunciar à Maria a concepção do filho de Deus. A sua vinda dos altos céus para anunciar a maternidade divina daquela mulher agraciada é considerada no Cristianismo como um dos mais enlevados acontecimentos na trajetória de um povo errante, que viveu desde o Antigo Testamento, esperando o cumprimento da maior de todas as profecias: o nascimento do Messias. Destarte, Gabriel ratifica a sua condição angélica e cimeira, que é a de ser a ponte fundamental entre os dois mundos - o superior, que pertence a Deus, o Todo Poderoso, e o inferior, da ordem de todos os mortais e que jazem no pecado original. Ao transitar nas duas esferas distintas e singulares, o mensageiro celestial tem a primazia de ser a entidade luminescente, que leva a termo os desígnios do Altíssimo, presentificando-se na Humanidade como o único dos arcanjos a quem os seres humanos podem contemplar em toda sua magnificência.

Gabriel, o protetor da Humanidade
Dos sete arcanjos poderosos, na hierarquia dos seres de luz, a serviço do Impronunciável, Gabriel é o que possui o perfil mais delineado e o que mais aparece nas Escrituras Sagradas. Ao ser incumbido da tarefa magistral, que fora a Anunciação, além de ser o anjo que mais se aproxima da Humanidade, em sua tarefa imutável, a essência luminescente, que também significa "DEUS É O MEU PROTETOR!", não obstante ter anunciado o nascimento de Jesus Cristo, Gabriel também apareceu ao profeta Zacarias para vaticinar, da parte do Senhor dos Senhores, o nascimento do profeta dos profetas, o filho de Isabel; aquele que abriria as portas do mundo para anunciar as Boas Novas e prenunciar a vinda irrefragável do Messias, o Salvador: João Batista. De um lado, a virgem, que não tinha sido desposada, ainda, pelo marido, o carpinteiro José; do outro lado, a esposa de um sacerdote, que não creu, e que, apesar de sua idade avançada para ser mãe, ter sido a genitora do maior de todos os profetas e o mais virtuoso dentre todos os homens, que vivera na face da terra. Os céus em uníssono proclamavam a glória de Deus a duas mulheres escolhidas; e dois homens determinariam, para sempre, os novos rumos da Humanidade. João anunciara a vinda do filho do Altíssimo, e Jesus, o Ungido, traria definitivamente a Salvação ao mundo. E as palavras de Isaías, chamado de profeta messiânico, então se cumpriram setecentos anos após a sua passagem pela terra.  

Gabriel e as revelações do Senhor
Guardador dos segredos de Deus, o arcanjo Gabriel é reconhecido exemplarmente pela Humanidade por sua missão única, que não pode ser igualada a nada no mundo angélico nem antes nem após a criação dos mundos, dos seres, dos entes e de todas as coisas. Cabe àquele que compartilha dos planos do Altíssimo com seus filhos na terra o inescusável dever de revelar a Daniel, o profeta apocalíptico, em visões fantásticas e singulares, e num passado distante, o nascimento, a vida e a morte do Messias, e que, nas palavras do enviado do Senhor, o Príncipe e, portanto, o Ungido. Ademais, a emblemática profecia é cristalina e inconfundível, ao afirmar que, após a morte do Salvador, os tempos seriam de conflitos, guerras; doenças, dores, destruição e de desolação sobre a terra. Não há nas Escrituras Sagradas palavras tão contundentes a respeito do mundo antes e depois do nascimento do Messias, reveladas a um homem. Gabriel é, desse modo, para além da anunciação e do nascimento de Jesus Cristo, aquele que, da parte de Deus, revela as palavras de uma época, no futuro da Humanidade, denominada Apocalipse, cuja textura é a trama relevadora do fim de todas as eras. Sua aparição diante do profeta Daniel marca o seu labor como mensageiro do tempo escatológico quando a Nova Jerusalém descerá dos céus; a justiça e a redenção triunfarão sobre as hordas malignas e a glória da segunda casa selará o reinado do Bem e do Amor entre os salvos em Cristo Jesus.

O Homem de Deus
A emblemática figura do arcanjo Gabriel ultrapassou as fronteiras da história humana para se transformar em um ente, que está presente, também, de forma incontestável e enigmática, nas três grandes religiões no mundo: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. No Islã, Yvrail, como é chamado o mensageiro de Deus, em particular, é incumbido de revelar ao profeta Maomé a maior de todas as verdades, que um homem poderia ter conhecimento: a de recitar os versos, que deveriam ser aprendidos e repetidos, impecavelmente, para que ele, considerado o último profeta, enviado por Deus à terra, anunciasse a Humanidade a palavra sagrada. Obedecendo, portanto, ao arcanjo Gabriel, quando estava em seu retiro espiritual, nas cavernas do Monte Hira, próximo à cidade de Meca - a morada de Deus no mundo - Maomé, um homem virtuoso e irrepreensível, e não um ser divino, como muitos pensavam, proclamara os ensinamentos divinos, preconizando a unidade e a restauração dos princípios e ordenanças celestiais, contidas no Judaísmo e no Cristianismo, e que, segundo o profeta, tiveram sido corrompidas, ao longo do tempo. No Islã, Jesus Cristo, diferentemente da tradição ocidental, que é a encarnação do filho de Deus, fora um dos grandes profetas, que também viera ao mundo para pregação das boas novas provindas dos céus. Segundo Maomé, Alá o teria escolhido por sua fé e retidão, sendo, portanto, um exemplo de homem justo e servo na terra para apregoar que a religião islâmica seria a guardiã de todas as religiões predecessoras; a que formaria, para sempre, o anelo inquebrantável entre a entidade suprema e seus filhos, em um mundo marcado pela perdição eterna a que estava fadado.

Gabriel: o anjo dos segredos ou o segredo dos anjos?
De portador dos segredos incorruptíveis do Altíssimo a anjo dissimulado e traidor, gradativamente, a outra face dessa poderosa entidade tem sido, em leituras e interpretações atualizadas, desvelada, através de muitas estórias e versões sobre o mundo angélico, em princípio; provocando, portanto, investigações oportunas e cada vez mais crescentes a despeito do comportamento e da postura de Gabriel no plano insondável da Criação. A imagem de um arcanjo fiel e sentinela das verdades de Deus, destinadas à Humanidade, vertiginosamente se desfaz, revelando, para o arrepio de muitos estudiosos, um semblante decaído e atormentado de uma criatura, que nutre sentimentos ignóbeis contra o Criador diante de sua missão insubstituível, na linhagem dos seres angélicos, que se corromperam, na complexa teia que compreende as batalhas pelo poder nas mais altas esferas angelicais e nos mundos inferiores. Assim, uma indagação inadiável se impõe: seria, realmente, Gabriel um ser devoto à majestade do Todo Poderoso Deus, cuja confiança era realmente imbatível? A névoa em torno do guardião da vontade augusta do Impronunciável é dissipada pela ideia musculosa de que, como Lúcifer, Gabriel teria engendrado planos e artimanhas nefastas para atingir a pérola da Criação: o Homem. Para além do traçado poético do fingere, é plausível refletir sobre a verdadeira identidade, o comportamento e o papel desse lustroso arcanjo antes da criação dos mundos e após os trabalhos de Deus, quando o Senhor dos Senhores descansara no sétimo dia, segundo a narrativa bíblica, pois a figura imponente de Gabriel aparece como o braço forte de Iavé, que, sob o silêncio avassalador de sua obediência, temor e subserviência, pareceu ter sua voz sufocada por ter sido o eleito do Eterno para conduzir aos homens às ordenanças divinas. Outra reflexão emerge das sombras do silêncio desse arcanjo tão misterioso quanto as palavras que o Senhor lhe confiara em seus átrios impenetráveis. Qual seja: o que movia o âmago desse arcanjo, que, ao ocultar do Criador, de outros arcanjos e até do Homem, a sua grande verdade, estava prestes a revelar, nas esferas angélicas, enigmas terríficos, que colocavam em risco o grandioso plano da Criação? 

Gabriel: o Outro lado da Luz!
Por ser o único dos arcanjos, que vigiava o trono do Altíssimo, como guardião de suas mensagens e cabendo a si o ofício monumental de proclamar os desígnios de Deus à Humanidade, Gabriel era o único ser de luz que detinha em sua natureza a plena vontade do Criador - marca robusta de sua subserviência a Iavé. Desse modo, o poder estava na aura do arcanjo, que, por conseguinte, gozava de posição singular diante dos demais na hierarquia angelical. Tal característica não representava regalias, mas, antes, o peso de sua responsabilidade a intermediar duas esferas distintas: a do Pai, Deus, e a de seus filhos, os homens. Anjo algum poderia ter acesso às informações que nele estavam gravadas com o fogo consumidor da deidade; cerradas para serem pronunciadas somente à criatura, segundo o tempo e o desejo do Senhor dos Senhores. Gabriel era, portanto, a ponte entre o Criador e seu verdadeiro Adorador, o Homem, que, um dia, fora acometido por dores universais, ao perder a imortalidade, quando desobedecera a Deus, pecando e caindo, tenebrosamente, no Jardim do Éden. No papel de um grande mordomo, Gabriel era um servo, que estava acima de quaisquer suspeitas, como fazia nos campos imensuráveis da Eternidade. Mas o anjo pródigo, que era responsável pela manutenção dos segredos de Altíssimo junto aos homens na terra, ao contrário de Lúcifer, que se rebelara frontalmente contra Senhor, ao liderar a rebelião no céu, quando arrastou para a peleja miríades de anjos, também descontentes com o Criador, mantivera-se mergulhado dentro de si, encobrindo o enigma dos enigmas: o ódio avassalador pela Humanidade, motivo suficiente, que o arremessou, inexoravelmente, para a turba dos anjos traidores. Um encorajou-se e proclamou-se supremo acima da deidade e de toda Criação, ao inflamar-se em ciúmes torpes e condenáveis por Deus ter eleito o Homem como a coroa máxima de toda sua obra, antes e depois do imponderável evento, que fora o nascimento da Luz, nos primórdios da Criação. O outro acovardou-se para urdir a trama, em secreto, a fim de descer à terra dos homens para liquidá-los, justamente por ter sido preterido pelo Criador. Gabriel, enfim, retirava sua máscara de representante legítimo das primícias do Bem para sagrar-se como imperador do Mal nos mundos inferiores, onde o perversidade reina soberana, alinhando-se, definitivamente, com a luz em  grande reversão. Lúcifer não estava sozinho nos umbrais famintos das trevas, pois a Humanidade também fora enganada e traída pelo dissimulado Gabriel.

Gabriel: mais um anjo traidor?
Várias são as narrativas que, ao tratarem da infame batalha nos céus, entre os anjos traidores e Deus, em tempos imemoriais, deslindaram a urdidura da impetuosa tarefa, arquitetada por Lúcifer, para destronar Iavé de seu trono, como Senhor e Soberano do Princípio e do Fim, e trouxeram à lume a intrincada rede de intrigas, na qual outros seres angelicais estavam envolvidos, ora ao lado do Senhor, que lutaram bravamente contra a legião luciférica, ora presentes nas duas faces de uma moeda ímpar, em cuja efígie enigmas hediondos revelavam a eterna luta entre o Bem e o Mal. A figura pestilenta de Gabriel está inserida nesse cenário deplorável, pois, ao assumir o posto honrado de ser o curador das mensagens de Deus Pai e tutor da Humanidade, emergindo do fogo essencial, na condição de elo vital, em princípio, entre o sétimo céu - a morada intangível de Deus - e o mundo inferior, a Terra, o planeta, a casa dos humanos, aquele que retém os desígnios do Altíssimo, cujo endereço é a primícia da Criação - o Homem -, o ódio velado corrompeu a essência do arcanjo que deveria proteger a Humanidade, e que, ao invés de executar a vontade do Criador, agiu por si só, de forma egóica, ensimesmada, promovendo, sob o manto funesto da hipocrisia, a separação entre as esferas terrena e espiritual, respectivamente, com o intuito de destruir a raça humana. A despeito da revelação da verdade, que estava soterrada na consciência do pernicioso arcanjo, pauta-se mais uma questão, que atormentava o campo vibracional da luz, no corpo angélico de Gabriel. A saber, portanto: como um ser de tamanha inferioridade e limitado, que é o Homem, pode ter a primazia sobre a única entidade que tem acesso aos planos do Altíssimo, sendo, por isso, o mantenedor da ordem na morada do Pai? Tal paradoxo fez com que Gabriel, para além da incompreensão, na qual se refugiara como um refém de sua própria existência, erodida por sentimentos maléficos, que corromperam a sua essência, avassaladoramente, cultivasse, de forma indiscriminada e obsediante, a ideia mórbida e irreversível, que era a de provocar uma cisão abismal entre Deus e a Humanidade, e, por fim, levar a cabo o seu desejo maior, que seria a destruição de todos os elos existentes e que mantinham unidos e inabaláveis os céus e a terra. Se o seu plano lograsse êxito, Gabriel, um aliado disfarçado, poderia, quiçá, alçar um voo mais altaneiro, ainda, a despeito de sua ira inominável: aniquilar aquele que, numa eternidade cega e distante, o criara - o majestoso Deus. A par disso, portanto, três questões se impõem: seria Gabriel um ser mais maléfico do que o próprio Lúcifer? Estaria, pois, Deus em profundo silêncio? Houvera, nas hordas angélicas, um parricídio? 

A revolta de Gabriel
Os mitos e estórias sobre o assassinato de pais pelos filhos existem desde a antiguidade mais remota de que se tem notícia. O mito da horda primordial é um exemplo memorável, revelando, de forma implacável e contundente, a conspiração medonha dos filhos de um único pai que, para darem um fim à perseguição e repressão deste último, e para o bem de todos, tiveram que assassinar aquele a fim de que o poder central, dominador e destruidor expirasse por toda a terra, e todos os filhos e filhas gozassem, enfim, da liberdade! E, nesse sentido, pode ser factível a ideia de que os filhos de Deus tivessem arquitetado o assombroso plano da conspiração para destronar Iavé de sua Eternidade, destituindo-lhe do lugar monumental de ser O Todo Poderoso; e, por fim, culminando com seu desaparecimento para que uma nova era surgisse após a conclusão dos trabalhos da Criação. O investimento histórico na figura central de Lúcifer como o grande traidor de Deus, e que, apoiado por uma legião infinita de anjos revoltados e em debandada, todos sob o véu do anonimato, envidou todos as suas forças para derrotar o Senhor dos Exércitos, malogrando em seu plano hediondo, pode ser um dos indicativos claros de que a verdadeira narrativa da grande peleja no céu entre Deus e os protagonistas da escuridão fora outra completamente diferente daquela que está plasmada na tradição judaico - cristã, e que se perpetua no imaginário quase eterno de uma humanidade manipulada e entorpecida por verdades, que não resistem à prova de fogo, qualquer que seja a tese erigida e/ou defendida. O empreendimento para conquistar a mais alta morada nos céus, com efeito, não fora somente uma engenharia diabólica, que perpassara por um anjo, serafim, querubim ou arcanjo. Títulos à parte, todos são seres poderosos e eternos, com missões específicas, e que estavam ligados simbioticamente ao Criador na administração e nos governos dos vários mundos criados, além da Terra, nas dimensões possíveis e inimagináveis para a compreensão humana. A nebulosa sobre a guerra no céu esconde um grupo de seres movidos por um objetivo similar: silenciar a voz de Deus por ter eleito a criatura de poderes limitados e pecadora como o elemento mais importante em toda Criação - o Homem - elevando-a, paradoxalmente, acima de todos os anjos. Lúcifer era mais do que um ser das trevas; era, com efeito, a representação do Mal e não apenas um ser de expressão singular, pois muitos agiam como Samael. Gabriel integrara, certamente, esta tropa celestial por ter sido preterido, esquecido pelo Pai, uma vez que era ele o curador dos segredos divinais. Para Gabriel, a traição viera do único habitante dos átrios impenetráveis nos altos céus e não de seu coração enegrecido e corrompido pelo ciúme, inveja e, por fim, pelo ódio fumegante, que sentia ardentemente pela Humanidade.

Gabriel: anjo ou demônio?
Uma das vertentes, que conduz à crença inevitável de que o nome Lúcifer é a representação coletiva do Mal, em sua forma de expressão, o que não invalida a existência do primogênito do do Altíssimo, ancora-se em dois princípios basilares, concernentes à questão que envolve os poderes acima das esferas angelicais - o Trono de Iavé -, e as manifestações singulares abaixo das hordas angélicas - os homens em seu mundo. Quais sejam: a de que, ao ser preterido por Deus e não ocupar a posição cimeira, que julgou que gozaria, na Eternidade que teria, no inenarrável plano da criação, Gabriel não suportara a ideia de ser paradoxalmente o portador do lógos divino, em sua essência fundadora, e que fora, segundo a vontade imutável do Criador, literalmente cambiado por um ser que desconhecia qualquer tipo de linguagem ou conhecimento. Para o arcanjo, o ser de barro era algo informe e frágil, sendo menor em poder e estatura do que os próprios anjos. Eis, portanto, a questão: como poderia uma criatura, de porte inferior e trafegante na zona do silêncio e dos códigos rudimentares, ser escolhida para ser a primícia de um projeto magnífico, que fora a Criação, em todo seu grau de esplendor? A outra via passa pelo ofício delegado por Deus a Gabriel. Se em sua natureza primeva o arcanjo fora o eleito do Senhor para estar, em diversos episódios, todos de suma importância, no plano dos mortais (daí o epíteto, "Homem de Deus") a fim de desempenhar a real função, que era a de ser o mensageiro entre o Pai e seus filhos, pontificando-se como elo vital, conclui-se, a priori, que Gabriel era o mais humano dos anjos ou aquele que mais conhecia a Humanidade em sua intimidade tal qual a que desfrutava com Deus, nas moradas celestiais. Logo, a chama de sua ira velada tivera uma razão mais forte para incendiar a narrativa, que flagrantemente revela a traição ou a tentativa de desferir o golpe impensável contra o Criador, de forma sorrateira e dantesca. Por ser o mais próximo dos homens na terra, para o arcanjo, o plano macabro da separação definitiva entre os seres menores, que eram destituídos de luz, e o senhor da vida e da morte, alcançaria o objetivo planejado em virtude de sua posição no mundo angélico. Gabriel, no entanto, esquecera-se de um componente fundamental em toda sua existência como servo do Deus altíssimo: ele, em sua luminescência infinita, era o Homem de Deus, mas não era o homem de carne e osso, que o Senhor criara do barro, soprando em suas narinas o fôlego necessário para sobreviver e assenhorar-se como a criatura mais importante na terra, e que fora criada para ser o seu filho legítimo.

Gabriel, o duplo
A posição privilegiada de Gabriel na hierarquia angélica, sua relação íntima com Deus e, por conseguinte, com os homens, na terra, o coloca em um patamar incontestável na complexa trama em que os anjos disputam o poder nos céus e empreendem a cisão entre aqueles que decidiram manter a fidelidade e a obediência a Iavé e os demais, que investiram massivamente no enfrentamento e na deposição do Eterno de seu trono majestoso. O capítulo cristalizado pelas estórias arcaicas e míticas denominado a Rebelião dos Anjos é apenas uma das múltiplas passagens por um labirinto infernal e que parece não ter fim, pois se engana quem pensa que a guerra entre as forças de Deus e a legião luciférica terminou; ao contrário, muitos episódios reais trarão à baila os verdadeiros protagonistas desse evento, e Gabriel integra a grande aliança dos descontentes, usufruindo de sua função e poder na terra para alcançar seus intentos maléficos. A diferença entre ele e os outros desertores do serviço divino é que a dubiedade lhe conferiu o trânsito por todas as esferas espirituais e terrenas, e sua capacidade para dissimular desfocou sua imagem na cena da revolta imemorial dos anjos, na mais alta assembleia celestial. Seu irmão ígneo, Lúcifer, declarou impiedosamente seus dissabores e sua verdadeira intenção em relação ao Criador. O caminho escolhido por Gabriel fora singular. Vestiu-se de silêncio e guardou, assim como fazia com os segredos do Pai, o seu sentimento de desagrado, rejeição e, principalmente, seu plano ousado: riscar o Homem da face da Terra e golpear o Altíssimo da forma mais vil: premeditando e levando a cabo o extermínio do Impronunciável. O ódio velado de Gabriel pela Humanidade e também por Deus engendra um questionamento. A saber: um dos anjos mais fulgurantes nas esferas angélicas era realmente dotado de poder suficiente para apagar, para sempre, a chama eterna, que iluminava a Eternidade? O fato é que, além da inteligência insuperável, a serviço de um egocentrismo sem limites, o que também ocorrera com Lúcifer, Gabriel poderia ter sido, ou um traidor coadjuvante, e que, ao lado de Samael (o verdadeiro nome de Lúcifer), o auxiliou no planejamento e na deflagração da inominável guerra nos céus, ou preferira construir seu projeto solo, aproveitando-se da derrocada de Lúcifer como vantagem robusta para lograr êxito em seus objetivos ocultos e macabros. O primeiro desejava o trono de Deus a todo custo, para depois aniquilar o Homem do Universo; o segundo desejou primeiro destruir a raça humana para depois conquistar os céus. Um plano fabuloso com duas direções distintas, e movido pelo mais execrável dos sentimentos universais: o cíúme.

A perdição de um anjo
A melancólica estória, que envolve a rede abominável dos anjos traidores, descendentes da luz primordial, e que da vontade consumidora do Altíssimo foram criados, emergindo para forjarem, com sua energia eterna, a vastidão inimaginável dos mundos, universos e dimensões do Infinito, se arrasta nos descaminhos das trevas, que invadiram e corromperam o brilho desses seres implacáveis, que se distanciaram das leis do equilíbrio, da harmonia, da paz, do amor, da servidão e da equidade. A face angelical sucumbira ante à cegueira incontrolável, que emergiu da vaidade e do egoísmo para guiar, nos tentáculos do abismo, os seres de luz em decadência irreversível. Se do Nada a Luz espargiu, invadiu e deu forma e cor às inteligências presentes em todas as esferas cognoscentes por Deus, as Trevas, um dia, reverteram o jogo e degeneraram a luminescência, que, opaca, transitou nas vagas da dor e do sofrimento para descambar no vazio - dimensão infernal, onde o vácuo impede que o fogo sobreviva, asfixiando e apagando todas as possibilidades do lúmen. Esse é o trajeto pavoroso de todos os seres que se corromperam e ainda continuam a fazê-lo na senda do mistério. Entre os céus e a terra, um véu denso cai sobre a verdade, que reina absoluta, acima da visão e da compreensão humanas, e daquela que há de vir, pois as asas de miríades de anjos batem e rebatem, produzindo faíscas, incendiando corpos etéreos e prolongando uma batalha de invencíveis(?). Gabriel, o bom arcanjo, que, um dia, servira fielmente a Deus a favor da Humanidade, e que demonstrou o real sentido do que é ser um autêntico mordomo, desviou de seus caminhos originários para se transformar no arauto de sua própria verdade. Ardendo em inveja, Gabriel intentou contra a Suprema Inteligência, que desapareceu, misteriosamente, da vista dos mortais e da onisciência dos anjos. O mundo está abandonado e a escalada da violência entre os humanos, na qual as transgressões, as blasfêmias, o descalabro e a destruição de todos os valores, que, um dia, foram semeados pelo amor divino, parece denotar a vitória do mais humano dos seres de luz e daquele que estava mais próximo de Deus. Entregue à própria sorte e enlameado com os pecados mais vis, a perdição tornou-se o lar dos filhos do Altíssimo para a fortuna dos aspirantes ao trono da deidade. É tempo de pranto na Terra e da ascensão das hostes angelicais. As legiões escurecidas controlam o Cosmo e o plano para controlar todas as esferas, visíveis e não - visíveis está em pleno curso. Diante de tal constatação um questionamento se faz necessário: Deus está morto?   

Gabriel em fuga
Se o Eterno não estiver morto e se, do sono profundo, um dia, despertar, a sua voz tremenda ecoará até os termos do Abismo; e as primeiras palavras, que serão cuspidas de seus lábios consumidores, inquirirão inexoravelmente: GABRIEL, ONDE ESTÁS?
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